Vida em Reflexão

No pulsar do coração... No limiar da emoção... No ressoar do pensamento... Viver o momento... Na dúvida o que fazer, dizer o que? No que crer... como pensar... decidir pelo quê? Seja bem-vindo ao Vida em Reflexão.

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Terra Blog

14.08.08

Visão míope, vida sem propósito



Não existe vida sem emoção, há vida sem paixão, não me refiro aqui necessariamente ao sentimento entre homem e mulher, mas ao viver por algo maior, alguma coisa que transcenda a sua própria existência, sob seu olhar...


Qual é a sua razão de ser? Viver para si, e por si!? Paradoxalmente, quanto mais nos preocupamos conosco maior é o nosso vazio. Enquanto olharmos somente para nós perderemos a nossa identidade, pois na verdade ela é descortinada à medida que enxergamos a Deus e focalizamos no próximo. Sob este binômio, Deus e o próximo, que desvendamos nosso interior.


“São os olhos a lâmpada do corpo”, ensina Jesus. “Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas” (Mateus 6.22-23). Antoine de Saint Exupéry, autor do clássico O Pequeno príncipe, declara: “O essencial é invisível aos olhos só se vê bem com o coração”. Ter olhos iluminados é saber enxergar além da superfície, por isso precisa ser olhado sob o prisma do coração, é o que nos ensina a história a seguir, baseada em fatos reais.

A coloboma de íris e retina, mal congênito, levou Silvânia Lucena , na infância, a rapidamente deteriorar sua visão. Por volta dos 10 anos enxergava a vida turva e sem distinção de cores, era como se visse o mundo através de uma cortina de fumaça, apenas vultos e focos de luz iluminavam sua retina com a capacidade corrompida de noventa por cento da visão.


Depois de décadas sem nenhuma perspectiva de cura veio o golpe final: uma catarata avançada obrigaria uma intervenção cirúrgica para colocação de um anel de sustentação no olho, na região do cristalino. O médico, segundo Silvânia, lhe explicou que a medida era para evitar uma deformidade externa no globo ocular, mas que custaria a visão residual. Depois da cirurgia, os lampejos de luz cessariam por definitivo. Em fevereiro de 2003, resignada se submeteu à cirurgia, o que a levou a, durante 22 dias, viver mergulhada na escuridão.


Ainda sob cuidados médicos ao acordar percebeu o balançar da cortina... sem distinguir as cores, por não ter sido ainda apresentada a este universo, foi para a cozinha, quando se deparou com a reprodução do pintor Claude Monet, que ela até então só admirava pelos relatos referentes às suaves pinceladas características do impressionismo. Reconheceu a assinatura no canto do quadro e nesse momento teve certeza: era a visão, da qual se esquecera.


“Foi uma das maiores emoções que já experimentei ver meus filhos e neto com os olhos, e não com a ponta dos dedos”. Contrariando a medicina, reverenciava o céu estrelado, intangível até poucos dias, saía pelas ruas parando em cada cantinho que lhe chamava a atenção. Observava os prédios, árvores... tudo era novo. “Tive insônia durante quase todo o período, pois não conseguia parar de pensar em tudo que tinha vista durante o dia”.


No décimo-oitavo dia de visão, Silvânia sentiu pequenos pontos negros e tontura quando foi com sua mãe ao mercado... em casa, pára para rezar e depois de fechar os olhos sua visão não mais se abriu.


Quatro anos se passaram da iluminadora experiência que a trouxe mais luz ainda, pois, atualmente, trabalha, por amor, como instrutora de artes para deficientes visuais: “Vi tudo o que era suficiente para viver feliz e ajudar o próximo. Tenho medo de voltar a enxergar e desenvolver o egoísmo dos videntes”, relata.


Silvânia perdeu somente a visão no sentido estrito do ver, porém, mais do que nunca, enxerga a vida do jeito que deve ser...


Faça como Silvânia, voluntarie-se num projeto de ajuda ao próximo, seja na sua área de competência ou afinidade, e assim, cure a miopia, veja a vida sob uma nova aurora. Veja e viva!


Relato real tirado da Revista do Correio Braziliense, 15 de julho de 2007, p. 22 a 25.

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